Um encontro virtual sobre o teatro, o cinema e a pandemia: Co.VIL e O Poço às margens da Covid-19

Por Juliana Veras

Esta carta é um encontro por escrito, que traz um relato de um grupo que montou um espetáculo de teatro, assistiu a um filme e se encontrou virtualmente na quarentena para conversar. Estamos cheios de reflexões e muitas perguntas, é preciso transbordar.

C:\Users\Juliana\Documents\CPBT - Curso Princípios Básicos de Teatro - T J A\CPBT 2019 - Co.VIL\CO.VIL E O POÇO - REUNIÃO VIRTUAL 8.4.2020\WhatsApp Image 2020-04-13 at 14.04.30.jpeg

Cena do espetáculo Co.VIL – Foto: Tim Oliveira.

Há exatamente um mês, 14 de março de 2020, nós do espetáculo Co.VIL nos apresentamos no Theatro José de Alencar. Somos a montagem de conclusão do Curso Princípios Básicos de Teatro da turma manhã 2019. No dia 13 houve apresentações de Maréa, montagem do Curso da turma da tarde, e dia 15 haveria apresentações de Toró, montagem da turma da noite, mas infelizmente tiveram que ser adiadas em razão da pandemia. Co.VIL foi portanto o último evento que aconteceu no TJA antes das atividades cessarem.

Chovia, lotamos três sessões na casa, foi inesquecível. Foi provavelmente a última ocasião onde muitos de nós tivemos a oportunidade de nos encontrar pessoalmente até agora, pois logo depois Fortaleza precisava guardar-se também em quarentena. 

Hoje estamos em plena pandemia mundial de Covid-19. Cada vez mais pessoas têm sido infectadas e mortas em todo o planeta desde que o novo coronavírus, causador da doença, foi descoberto na China em dezembro de 2019. O mundo para e a humanidade se protege em quarentena. A pandemia traz mudanças em nível não só de comportamento, mas também aponta a necessidade de uma verdadeira reformulação dos valores que nos regem. 

Em 8 de abril, nos encontramos virtualmente para conversar sobre como a humanidade tem se colocado no limite de seus questionamentos nesses tempos de isolamento. 

O espetáculo Co.VIL, cujo tema surgiu das urgências e inquietações políticas da turma, traz um olhar sobre o distanciamento das classes como pano de fundo, para justamente propor uma análise do eu e a sociedade em que estamos inseridos, isto é, a sociedade que nós fazemos, pautada em relações de opressão. Em nós que realizamos a pesquisa em 2019, ao ver a situação do mundo hoje em dia, vem uma sensação de angústia profética. 

A mesma sociedade que criticamos sofre de uma forma jamais esperada, acelerando uma reflexão sobre questões essenciais da vida humana como o sentido, os valores, a esperança. E também, por que não reconhecer, aponta talvez a máscara daquilo no que nos tornamos quando somos levados a certas situações extremas. 

Uma coincidência muito oportuna nos pôs em contato com o filme espanhol O Poço, dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia e roteirizado por David Desola e Pedro Rivero. Motivados pela conexão da temática do filme com nossa pesquisa, combinamos de assistir e nos unir para discutir pontos em comum entre as obras e os tempos tão difíceis que estamos vivendo, e deixar brotar reflexões em nós enquanto artistas criadores e humanos. 

Eu como diretora do espetáculo e provocadora inicial da reunião virtual torcia para que as reflexões despertadas trouxessem quem sabe algum respiro. Difícil, mas apenas o fato de nos encontrarmos provocaria com certeza um imenso prazer e alguma lucidez política e sensível importante para os tempos atuais, além de propor um novo diálogo com a obra teatral, tirando-a dos palcos e trazendo à tona numa intercessão com o cinema. Nos provoquemos, então.

C:\Users\Juliana\Documents\CPBT - Curso Princípios Básicos de Teatro - T J A\CPBT 2019 - Co.VIL\CO.VIL E O POÇO - REUNIÃO VIRTUAL 8.4.2020\WhatsApp Image 2020-04-13 at 14.04.29.jpeg

Cena do filme O Poço, da Netflix.

Co.VIL e O Poço

Convido à pessoa que estiver lendo esta carta-relato a assistir ao filme O Poço antes, para melhor se juntar às nossas reflexões que tentarei transcrever, além de não perder a surpresa do filme. É preciso estômago. E se não pôde assistir à peça de teatro Co.VIL ainda, estamos trabalhando para que seja possível compartilhá-la com o público em breve.

Peço licença agora para situar a conversa com uma breve descrição do enredo da peça, confiante de que, pelo fato de o teatro se tratar de uma arte que toca a intuição pelo contato sensorial e vivencial, as revelações aqui apontadas podem inclusive potencializar a experiência poética para quando pudermos nos encontrar em cena depois.

O espetáculo começa com um cortejo alegre e envolvente conduzido por nossos personagens heróis, “os ratos”, atravessando com o público vários ambientes do TJA. Passamos pelo Hall de entrada, corredores laterais e Porão, onde a festa vai se intensificando numa crítica social pela falta de água. Chegamos depois à atmosfera densa de um velório das vítimas de violência do mundo inteiro, em cima do qual logo se monta uma sala de jantar com nossos personagens “família tradicional brasileira”, uma aristocracia hipócrita que esbanja a fartura da própria água e o descaso com seus empregados. Ao final, os personagens todos são assassinados em massa, restando apenas uma esperança duvidosa: o destino nas mãos de uma criança alegórica, herdeira do poder que provocou a destruição. Todos sofrem, todos abusam de certa forma daquilo a que têm acesso, ou seja, o problema não é a riqueza ou pobreza que estabelecem valores de mal e bem de forma maniqueísta, mas a própria humanidade que erra quando se exime de olhar o outro. 

No filme O Poço, uma plataforma alegórica cheia de comida começa a descer a partir do andar zero, parando em cada andar uma vez por dia para que as pessoas que lá estão se alimentem. Quem está nos primeiros andares encontra uma quantidade farta de comida, mas invariavelmente acaba consumindo de forma excessiva, sem se preocupar com o que sobra para os muitos andares inferiores…

O encontro

Chegado o dia, conectamos e nos reconectamos. 

Comentamos então sobre o argumento inicial do filme: existem três tipos de pessoas, as que estão em cima, as que estão embaixo e as que caem. Comparamos com as classes sociais evocadas pelo Co.VIL, onde de fato nossos personagens ratos são a classe menos favorecida, que só tem direito aos restos do que a família, classe superior, consome. O que resta para a periferia é exatamente isso, os restos.

Ressaltamos a situação em que estamos vivendo agora na pandemia, efeito do funcionamento deturpado do nosso sistema capitalista. Quem está em cima consome, sem se importar com quem está embaixo, porque tem que sobreviver. Assim como pessoas que estocam mantimentos em suas casas na quarentena, fazendo faltar alimento e materiais básicos para outras pessoas, sem se preocupar com uma divisão necessária para que essa sobrevivência chegue a todos.

Refletimos sobre certas atitudes desumanas serem legitimadas pelo próprio sistema. É comum, e até incentivado pelo capitalismo, consumirmos abusivamente. E como o mesmo sistema legitima este abuso, não existem consequências. Vemos pessoas dizerem que fazer tal coisa é errado mas que, na primeira oportunidade, as fazem. Muitas vezes se esforçam e trazem um discurso ético de fazer o que lhe parece correto, porque são seus próprios princípios. O que nos leva a pensar sobre a necessidade de uma autoridade que regule se o que fazemos é certo ou não. Infelizmente a autoridade muitas vezes, ao invés de ajudar, atrapalha de forma irrecuperável.

O termo “solidariedade espontânea” aparece no filme quando é explicada a forma de funcionamento do Poço, que se chama “sistema vertical de autogestão”. É um chamado de responsabilidade para cada um ali, sob a provocação de fazer despertar essa tal generosidade espontaneamente, dentro de uma relação vertical onde minhas atitudes podem prejudicar diretamente quem está abaixo de mim.

Lembramos da Panna cotta, uma comida que no filme serviria de mensagem para a administração do Poço se fosse devolvida para cima sem ser devorada. Fazendo um paralelo desse elemento com o espetáculo, o corpo da rata governanta morta em Co.VIL é erguido pelos outros ratos no final, antes de todos serem metralhados. Essas ações representam uma tentativa de burlar o sistema, de dizer que não deixamos que aquele corpo fosse devorado. O sistema, porém, não se importa.

C:\Users\Juliana\Documents\CPBT - Curso Princípios Básicos de Teatro - T J A\CPBT 2019 - Co.VIL\CO.VIL E O POÇO - REUNIÃO VIRTUAL 8.4.2020\WhatsApp Image 2020-04-13 at 14.04.28.jpeg

Cena do espetáculo Co.VIL – Foto: Tim Oliveira.

Nos perguntamos em dado momento da conversa a que ponto chegamos, onde as atitudes do nosso cotidiano se assemelham tanto ao cotidiano do filme, onde a solidariedade praticamente não existe. Queremos comer bem, nos alimentar, mas na verdade precisamos escolher se sobrevivemos ou morremos de fome. O filme fala de comida, pondo em questionamento o que somos capazes de fazer para sobreviver. 

A personagem Imoguiri chega no Poço argumentando com as pessoas, tentando explicar para os andares abaixo que devem se preocupar com os que ainda se alimentarão daquela mesma comida. Tudo em vão. Alegoricamente, na pesquisa de Co.VIL tínhamos essa imagem dos restos de comida irem para o andar inferior da casa da família, o porão, onde os ratos vivem.

Lembramos de um elemento precioso que surgiu na nossa pesquisa para a montagem: um cachorro que se alimenta com toda pompa enquanto os criados não teriam o que comer. No filme, cada pessoa que entra no Poço pode levar um objeto à sua escolha e Imoguiri leva justamente um cachorro. O animal é alimentado por ela de forma regrada, mas mesmo uma alimentação regrada poderia salvar outras vidas humanas. Mais um questionamento que traz à tona os valores morais de nossa sociedade tão civilizada.

As reflexões despertadas na conversa davam sempre uma sensação em nós de que não temos respostas para quase tudo. Como o problema parece ser a forma como a própria sociedade se estrutura, às vezes até a noção de escolha é deturpada, por ser estranho precisarmos escolher a quem devemos salvar. No caso, o cachorro, quem está embaixo, ou a nós mesmos.

Essa relação vertical proposta no filme nos aponta que todos que estão no mesmo sistema o fazem funcionar. Há pessoas que não ajudam quem está níveis abaixo por crueldade e egoísmo, outros por ignorância de não conhecerem a situação, outros por sobrevivência, mas todos contribuem para que aconteça como é. As atitudes do personagem Trimagasi, por exemplo, punem quem está abaixo no Poço sem se preocupar em argumentar com quem está acima, assumindo uma total descrença na generosidade humana. Diferente do personagem Goreng, que no início tenta conversar com as pessoas mas vai mudando de postura.

De fato, o filme propõe uma visão derrotista da sociedade, apontando um sistema que falhou. Estamos vivendo isso hoje em dia. As prateleiras dos supermercados estão escassas, as pessoas têm medo de faltar mantimentos e preferem não deixar para mais ninguém. 

A personificação do sistema derrotado no filme é o próprio Trimagasi, que já viveu certas coisas e a tudo responde com “óbvio”. Todas as vezes que ele diz isso, suas fala poderiam ser substituídas por “isso vai me beneficiar, vai me manter vivo, não estou nem aí se você vive ou não, é óbvio”. A cena em que Trimagasi amarra Goreng na cama, dizendo que vai tirar pedaços de sua carne porque gosta muito dele, nos revela bastante. Ele precisa estar com lucidez para arrancar um pedaço do outro sem matá-lo. Assim, permanecerá vivo e poderá também alimentar Goreng com a carne que arrancou dele. Chegamos a um nível de argumentação de tensão máxima: Goreng afirma que, se Trimagasi cometer essa atrocidade, a responsabilidade será inteiramente dele, não das circunstâncias.

Trouxemos à lembrança a “Alegoria das Colheres Longas”, uma animação que mostra um prato de comida rodeado por um abismo. À distância, as pessoas têm colheres de cabo longo que alcançam a comida, mas não alcançam a própria boca. Não podem alimentar a si mesmas, mas podem alimentar-se uns aos outros. 

Apesar de óbvio, parece muito distante de nós simplesmente enxergar o mundo assim. Mas se pararmos de ter encontros como esses, de conversar sobre essas soluções, se esquecermos o contato humano e desistirmos de acreditar na nossa própria inteligência e sensibilidade, aí sim estaremos perdidos.

C:\Users\Juliana\Documents\CPBT - Curso Princípios Básicos de Teatro - T J A\CPBT 2019 - Co.VIL\CO.VIL E O POÇO - REUNIÃO VIRTUAL 8.4.2020\WhatsApp Image 2020-04-13 at 14.04.29 (1).jpeg

Cena do filme O Poço, da Netflix.

A sociedade em que vivemos nos incentiva ao egoísmo. O ato de ser solidário, de se preocupar com o outro, já é por si só um ato revolucionário, comentamos. Deixar de comer para deixar sobrar para os andares inferiores, por exemplo. O personagem do Poço que faz isso é chamado de comunista como uma grande acusação, mostrando a demonização de termos que são usados para alimentar uma reatividade a favor do sistema e contra a vida, sem se preocupar no significado desses termos. O problema não são os termos, mas o fato de estarmos claramente abalados em nossas ideologias há muito tempo, frágeis que somos.

Como dissemos, cada personagem que entra no Poço escolhe um objeto para levar consigo. Enquanto Goreng leva um exemplar do livro Dom Quixote, o velho Trimagasi leva uma faca, nos dizendo muito sobre a própria humanidade em seus questionamentos sobre matar ou não comer, comer ou não matar.

Durante o filme, vários de nós tivemos a sensação de ficar esperando longamente por uma solução, uma forma de as personagens pararem de se matar para sobreviver. E percebemos juntos que é exatamente isso que nós estamos vivendo nos tempos atuais. Esperando. Essa espera nós trazemos com muita força em Co.VIL. Me pergunto eu se estamos mesmo em um tempo de respostas. Que façamos pelo menos as perguntas certas. 

Como poderíamos inverter a própria inversão dos valores? Reverter a lógica de escarnecer e sujar a comida de quem está embaixo apenas porque no mês seguinte eles poderão estar em cima e escarnecer de nós e sujar nossa comida. Como poderíamos adotar a alegoria das colheres longas?

Enquanto o Poço aponta um caminho vertical de opressão onde só se pode descer, Co.VIL traz um caminho horizontal de deslocamento no espaço e, adiante, uma subida. Mas chegamos ambos na destruição. 

A trajetória do filme pode sugerir alguma esperança, figurada pela personagem criança no último andar, apesar de que, segundo o diretor, talvez a criança não exista, mas estamos trabalhando com alegorias em todas as obras desde o início. 

Na peça, seguimos caminhando e cantando com os espectadores para, em determinado momento, subirmos e encontrarmos uma família de aristocratas com uma criança que é silenciada durante toda a cena e que, no final, é a única que sobrevive. Seria ela a esperança do Co.VIL? A nossa criança é uma aristocrata tirana cruel ou uma rata disfarçada, que se condói ao final com a situação dos outros ratos? Seu olhar no final provoca um grande ponto de interrogação sobre o que fará e como será o futuro. E os nossos ratos também degradam e oprimem, por serem oprimidos, assim como a família, em várias camadas.

Com tudo isso, como podemos ajudar o próximo se o próximo não tem nenhum compromisso conosco? Mas é justamente esse pensamento que tem que ser reformulado. É preciso ajudar sem esperar que o outro ajude. 

A criança do filme e a criança da peça despertam em nós o desejo de que a esperança seja ao menos possível. Sem ela, a esperança, não há sentido em estar vivo. É preciso criar a esperança, inventá-la.

Por fim, chegamos ao final do nosso encontro e do nosso reencontro. O que podemos concluir? Se a autogestão vertical não funciona, se a caminhada horizontal e subida nos leva à constatação de que estamos muito longe de viver em coerência, o que fazer? Talvez esse não seja mesmo um tempo de respostas. 

O fato de estarmos aqui conversando nos mostra que a cultura é um caminho. A turma reflete sobre o que seria de nós agora em tempos de pandemia se não fosse a cultura, que nos conforta, representa e faz pensar. 

O filme nos põe no lugar das pessoas que estão no poço, para pensarmos o que faríamos no lugar delas. Na peça, a família representa o que somos enquanto frutos de uma sociedade hipócrita, mas o público é levado a se identificar sobretudo com os ratos, cuja linguagem é o afeto e a resistência. 

Ao nos perguntarmos sobre a esperança dentro do espetáculo Co.VIL, os atores comentaram que ela sim está presente. A interpretação está aberta a quem for fruir da obra, mas pensamos que a esperança pode ser simplesmente a mensagem de que, se continuarmos agindo como agimos, nossas crianças vão ser como seus corruptos pais. Precisamos cuidar bem delas, para que possam bem continuar o caminho que traçamos e assim transformar o futuro. 

Pensar a esperança talvez seja pensar no que vai ser da arte, da cultura e das nossas relações, depois que esse tempo de isolamento acabar. Por agora, a melhor forma de cuidarmos de nós mesmos, de nossos próximos e do mundo, é ficando em casa.

Fortaleza, 14 de abril de 2020

Obs.: No encontro do dia 8 de abril estávamos Alex Antunes, Erik Willyam, Geórgia Cavalcante, Guika Ta, Hudson Ramalho, Isaac Castelo Branco, Jean Brito, Juliana Veras, Lia Fontenele, Lucas Medeiros, Marianne Bonfim, Nairton Santos e Vic Nascimento, mas falamos junto a todas as pessoas que fazem, fizeram e viveram Co.VIL conosco. Muito obrigada. Evoé!

Juliana Veras
Diretora do espetáculo Co.VIL
Professora do Curso Princípios Básicos de Teatro

#FicaEmCasa

C:\Users\Juliana\Documents\CPBT - Curso Princípios Básicos de Teatro - T J A\CPBT 2019 - Co.VIL\CO.VIL E O POÇO - REUNIÃO VIRTUAL 8.4.2020\WhatsApp Image 2020-04-09 at 06.40.57 (1).jpeg